
Nos últimos meses, uma notícia chamou a atenção de quem acompanha o ecossistema de desenvolvimento front-end: o Tailwind CSS, um dos frameworks mais populares do mundo, esteve muito perto de entrar em colapso financeiro.
Isso não aconteceu por falta de adoção.
Muito pelo contrário.
O Tailwind lidera rankings de uso, aparece como resposta padrão em discussões sobre CSS moderno e soma bilhões de instalações no npm. Ainda assim, seu criador veio a público afirmar que o projeto tinha apenas seis meses de vida, ao mesmo tempo em que anunciou a demissão de 75% da equipe.
O choque não foi técnico.
Foi econômico.
O que realmente aconteceu com o Tailwind CSS
O ponto de partida dessa crise veio à tona de forma pouco comum: um pull request no repositório do Tailwind.
Um usuário sugeriu a inclusão de um arquivo llms.txt na documentação, algo que facilitaria o consumo da documentação por ferramentas de inteligência artificial. A resposta do criador do projeto foi direta, dura e, acima de tudo, honesta.
Ele explicou que 75% do time de engenharia havia sido demitido no dia anterior, devido ao impacto brutal da IA no modelo de negócio da empresa. Disse também que cada minuto gasto em tarefas gratuitas para a comunidade era um minuto a menos tentando salvar o negócio e garantir o salário das poucas pessoas que ainda restavam.
Pouco depois, ele complementou o contexto:
o tráfego da documentação havia caído cerca de 40% desde 2023, mesmo com o framework sendo mais usado do que nunca.
Esse detalhe é crucial.
Durante anos, o modelo do Tailwind funcionou assim:
os desenvolvedores acessavam a documentação, conheciam produtos comerciais ligados ao ecossistema e, a partir disso, parte desse público se convertia em clientes.
A documentação era a principal porta de entrada para a receita.
Com a popularização das ferramentas de IA, esse caminho foi interrompido.
Hoje, muitos desenvolvedores não acessam mais a documentação oficial. Perguntam direto para um chat de IA ou recebem sugestões prontas dentro da própria IDE.
O resultado foi devastador para o negócio:
uso em alta, tráfego em queda e conversão quase inexistente.
Segundo relatos públicos, a empresa chegou a perder cerca de 80% da receita, mesmo estando no auge da popularidade.
O caso do Tailwind CSS não é isolado.
Plataformas como Stack Overflow, Wikipédia e diversos sites técnicos enfrentam o mesmo fenômeno: o zero-click search. O usuário faz a busca, recebe a resposta resumida por IA e não clica em mais nada.
Estudos recentes mostram que até 60% das buscas hoje não geram nenhum clique. Isso muda completamente o jogo para quem depende de tráfego para sustentar conteúdo, produtos e projetos.
No mundo do desenvolvimento, o impacto é ainda maior. Com autocompletes inteligentes e chats integrados às IDEs, o desenvolvedor muitas vezes não precisa sair do editor para resolver um problema.
O conhecimento continua sendo consumido.
Mas o valor econômico não retorna para quem o produz.
Após o desabafo público, a situação do Tailwind gerou grande repercussão na comunidade. Empresas que dependem diretamente do framework anunciaram apoio financeiro ao projeto.
Organizações como Vercel, Google e outras prometeram investimentos para manter o Tailwind vivo. Poucos dias depois, a própria Vercel anunciou oficialmente o patrocínio do projeto, reconhecendo o papel fundamental do Tailwind como infraestrutura da web moderna.
Isso trouxe alívio imediato.
Mas não resolveu o problema estrutural.
A reflexão inevitável
O drama do Tailwind CSS escancara um paradoxo desconfortável:
o open source nunca foi tão usado, e nunca foi tão difícil sustentá-lo.
A inteligência artificial não está “matando” projetos.
Ela está quebrando silenciosamente os caminhos tradicionais de monetização.
Se nada mudar, veremos mais projetos fechando código, mais conteúdo migrando para comunidades privadas, mais conhecimento sendo protegido por muros pagos.
E isso é irônico.
Porque a própria IA depende desse conhecimento aberto para existir.
O desafio daqui para frente não é técnico.
É econômico.
Ou o mercado encontra formas mais justas de sustentar quem constrói a base da tecnologia, ou vamos continuar repetindo esse mesmo drama, projeto após projeto, até que o open source deixe de ser aberto apenas por falta de opção.
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