Eu já estava precisando de um teclado novo há um tempo. O meu antigo estava claramente no fim da vida útil: teclas falhando, desgaste visível, aquele tipo de equipamento que você continua usando mais por teimosia do que por escolha. Eu sabia que precisava trocar, mas vinha adiando. Preguiça mesmo. A compra não era urgente o suficiente para virar prioridade, então ia ficando para depois.
Até que, em um dia comum, fui ao shopping com minha esposa e meu filho para resolver coisas simples. Passeio normal, compras normais, rotina. Em um desses corredores, passei em frente àquelas lojas de informática bem típicas, que vendem teclado, mouse, headset, caixa de som, essas coisas. Você sabe exatamente do que estou falando.
Olhei a vitrine meio no automático e vi alguns teclados expostos. Naquele momento, bateu o impulso clássico: “já que estou aqui, vou dar uma olhada”. Nada muito planejado. Entrei na loja sem grandes expectativas, só com aquela ideia de talvez finalmente resolver algo que eu vinha adiando.
O Diálogo
Um atendente veio falar comigo. Pedi para ver alguns teclados, começamos aquele papo básico de vendedor e cliente. Até aí, tudo normal. Então resolvi fazer a primeira pergunta mais específica.
Perguntei se ele tinha algum teclado no formato 60%.
O atendente simplesmente me encarou. Não foi um olhar de dúvida leve, foi aquele olhar de quem realmente não faz ideia do que acabou de ouvir. Ele ficou alguns segundos processando e respondeu: “60%? Como assim? É desconto?”.
Eu ri. Não de deboche, mas porque a situação foi genuinamente engraçada. Expliquei que não era desconto. Um teclado 60% é um modelo compacto, que remove o teclado numérico, as teclas de função e parte do bloco de navegação. É comum entre quem trabalha muito tempo digitando ou quem busca algo mais minimalista.
Quando expliquei, ele entendeu. Disse “ah, sim” e foi buscar alguns modelos que se encaixavam nisso. Até aí, tudo bem. Nem todo mundo conhece os nomes técnicos de tudo, e explicar faz parte da conversa.
Enquanto eu olhava os teclados, resolvi fazer outra pergunta. Perguntei se o teclado usava tecnologia N-Key Rollover, o famoso NKRO. Mais uma vez, a mesma reação. Ele claramente não fazia ideia do que aquilo significava.
Expliquei novamente. Disse que N-Key Rollover é a capacidade do teclado de registrar múltiplas teclas pressionadas ao mesmo tempo, algo importante para quem digita rápido ou usa atalhos com frequência. Ele respondeu que não sabia informar, que teria que pesquisar, ver especificação, algo assim.
Eu disse que estava tudo bem, que não precisava. Continuei olhando os produtos por alguns minutos, mas naquele ponto meu interesse já tinha diminuído bastante. Não por falta de produto, mas pela sensação de que eu estava falando uma língua diferente da pessoa que deveria me orientar.
A Pergunta Decisiva
Antes de sair da loja, fiz uma última pergunta. Perguntei se eles vendiam memória RAM. A resposta foi direta: “Memória RAM? O que é isso?”.
Essa foi a hora em que, internamente, eu ri de verdade. Não para fora, claro. Mas na minha cabeça veio imediatamente a pergunta: o que essa pessoa está fazendo trabalhando em uma loja de informática?
Expliquei com calma. Disse que memória RAM é um componente do computador, uma placa comprida que vai encaixada na placa-mãe, não é cabo, não é HD, não é processador. É uma peça fundamental para o funcionamento da máquina.
Ele ficou pensando. Pensando bastante. Mandou mensagem para alguém, provavelmente outro funcionário ou o gerente. Depois de um tempo, disse que eles não vendiam isso ali. Agradeci, me despedi e fui embora.
A Reflexão: O Custo da Falta de Preparo
Foi só depois de sair da loja que a ficha caiu de verdade. Aquela loja tinha acabado de perder, com muita facilidade, mais de mil reais em uma venda. Não porque os produtos eram ruins. Não porque os preços eram altos. Mas porque faltava algo básico: conhecimento do que se está vendendo.
Fiquei pensando se isso é comum. E, sendo bem honesto, acho que é mais comum do que deveria.
Existe uma ideia muito difundida de que vender é apenas empurrar produto. Que basta ter algo na prateleira e alguém simpático para fechar negócio. Mas isso funciona só até certo ponto. Quando o cliente sabe minimamente o que está procurando, o jogo muda completamente.
Nesse caso, eu não estava buscando nada absurdo. Teclado 60% e memória RAM não são conceitos avançados ou obscuros. São itens básicos no universo de quem vende hardware. Não saber explicar é mais do que uma falha técnica. É uma falha de preparo. E isso não vale só para lojas de informática.
No mundo da tecnologia, a gente fala muito sobre entregas rápidas, atalhos, soluções improvisadas. Às vezes isso funciona. Mas quando o básico não está sólido, qualquer conversa mais profunda desmonta tudo. É exatamente o que acontece quando alguém decora respostas sem entender o conceito por trás.
O vendedor não era o vilão da história. Muito provavelmente ele só estava ali cumprindo um horário, sem treinamento adequado, sem incentivo para aprender, sem alguém que dissesse “você precisa entender o que está vendendo”. O problema é estrutural.
Mas do ponto de vista do cliente, pouco importa. A experiência foi ruim. A confiança não se formou. A venda morreu ali.
Depois comentei isso com minha esposa, meio em tom de brincadeira, meio em tom de espanto. Como alguém que trabalha nesse tipo de loja não sabe o que é memória RAM? Claro que falei exagerando, rindo, no modo de dizer. Mas a reflexão ficou.
Isso me fez pensar no meu próprio negócio, no meu próprio trabalho, nas pessoas com quem eu trabalho ou posso vir a trabalhar. Conhecer o produto, o serviço ou a tecnologia não é um luxo. É o mínimo.
Estar um passo à frente do cliente não é arrogância. É responsabilidade. É isso que permite orientar, explicar, evitar compras erradas e criar confiança. Quando isso não existe, o cliente percebe na hora. Mesmo quem não entende tecnicamente sente quando o outro está perdido.
No fim, eu saí sem teclado. A compra continuou adiada. Mas saí com uma lição muito mais valiosa do que qualquer periférico novo.
Tecnologia muda rápido, ferramentas mudam, tendências vêm e vão. Mas o básico permanece: quem trabalha com algo precisa, no mínimo, entender o que está fazendo. Seja vendendo teclado, escrevendo código ou liderando pessoas.
Quando isso falta, o custo não é só uma venda perdida. É reputação, é confiança, é oportunidade que não volta. E isso, diferente de um teclado velho, não se troca tão facilmente.