Tem emails que a gente abre distraidamente, pensando que é mais uma newsletter, mais um pitch de vendas, mais alguém querendo vender curso.
E tem emails que param a gente.
Esse que recebi da Ruth Cheesley, líder do Mautic, foi do segundo tipo. Não era pedido de patrocínio, nem divulgação de funcionalidade nova. Era um pedido de ajuda real, daqueles que fazem a gente parar e pensar: "caramba, como chegaram até aqui?".
Porque o Mautic não é qualquer projeto. É uma das poucas alternativas open source sérias para automação de marketing num mercado dominado por HubSpot, Marketo e ActiveCampaign. Gente grande. Gente com bala na agulha.
E ainda assim, lá estava o email: Precisamos de 40 mil dólares até março pra manter as luzes acesas.
Fiquei com aquilo na cabeça. O que levou um projeto relevante a bater nessa parede? O mercado mudou? A IA tem culpa? Ou a gente é que esqueceu que software livre não se sustenta sozinho?
Resolvi cavar um pouco. E o que encontrei diz muito sobre o momento que a tecnologia vive e sobre o nosso papel nisso tudo.
O Email Que Chegou Na Minha Caixa Postal

A Ruth Cheesley, líder do Mautic, mandou uma atualização sobre a campanha de financiamento que lançaram. Para quem não conhece, Mautic é uma das poucas plataformas de automação de marketing open source e focada em privacidade que ainda existem por aí. Concorre com HubSpot, Marketo, ActiveCampaign nomes pesados, com aportes milionários.
O resumo da ópera: eles precisam de 40 mil dólares até março para "manter as luzes acesas". O ideal seriam 60 mil. Em uma semana, arrecadaram pouco menos de 10 mil, com 48 apoiadores. Teve gente doando 10 dólares, outros mandaram 1.500. Teve até alguém que usou o Mautic para organizar as listas de convidados do próprio casamento sim, casamento.
A pergunta que não quer calar: Como um projeto relevante chega nesse ponto?
Fui pesquisar os bastidores. No relatório de dezembro de 2025, a própria Ruth já sinalizava "verdades duras". O projeto enfrentou um déficit estrutural no segundo semestre do ano passado, resultado de reajustes de planos de alguns membros-chave.
As consequências vieram rápidas: redução de 40% das horas da liderança, congelamento de contratações, suspensão de viagens. Um projeto que mal começou 2026 já tendo que fazer escolhas cirúrgicas.
Mas o dado que mais me chamou atenção foi outro: segundo o relatório anual, aproximadamente 25% das instalações do Mautic ainda rodam versões antigas e sem suporte. O Extended Long Term Support (ELTS), que seria uma fonte de receita óbvia, gerou apenas 4.500 dólares no ano inteiro. Um programa feito sob medida para organizações que precisam de estabilidade, mas que simplesmente não decolou.
Traduzindo: tem gente usando de graça, com o software rodando em produção, gerando valor, mas sem devolver nada. Soa familiar?
Seria fácil jogar a culpa na inteligência artificial. "Ah, o mercado mudou, todo mundo quer gerar campanha com prompt, ninguém quer mais aprender de verdade".
O relatório do Mautic, porém, mostra um dado curioso: 58% das pessoas que fazem trial da plataforma não usavam nenhuma ferramenta de automação de marketing antes. Gente nova entrando no mercado, tentando resolver problemas reais. O mesmo relatório aponta que 28% vinham do ActiveCampaign, outros tantos do Mailchimp, Brevo, RD Station.
A conclusão? O mercado não desapareceu. Ele está em transformação. O que mudou foi o padrão de contribuição. Os números de 2025 mostram queda de 40% no número de novos membros comparado a 2024, mas as contribuições de código aumentaram ligeiramente.
Ou seja: o núcleo duro continua produzindo. A base, o "colo que sustenta", está afinando.
O Que Isso Tem a Ver Com Você, Dev Solitário Que Lê Esse Blog
Lembra do sentimento do meu post sera que ainda vale a pena programar? De entregar software com alma e receber silêncio de volta?
A história do Mautic é a história de todo projeto open source que não é bancado por big tech. É a história de quem constrói com cuidado, documenta com carinho, e vê o usuário médio reclamar que "o botão não é colorido o suficiente". É a história de quem compete com soluções proprietárias que queimam dinheiro de venture capital em marketing, enquanto a "concorrência" do lado de cá depende de doação de 10 dólares.
O Mautic não está pedindo esmola. Está pedindo uma reflexão. Como a própria Ruth escreveu no relatório de dezembro: "resiliência, no contexto do open source, é a capacidade de olhar para realidades duras e se adaptar sem perder a alma".
O que você pode fazer (além de ler e suspirar)
Não vou fingir que tenho a solução mágica. Mas tenho um convite.
Se você usa Mautic, já usou, ou simplesmente acredita que deve existir uma alternativa viável, aberta e focada em privacidade aos tubos de ensaio do Vale do Silício, considere contribuir.
A campanha está no ar. 10 dólares. 100. O que fizer sentido pro seu bolso. Se não puder contribuir financeiramente, contribui de outra forma: compartilha, escreve um post, puxa o papo na empresa onde você trampa.
A meta é 40 mil até março. Se metade dos ~40 mil usuários ativos desse 10 dólares, já estaria resolvido. É uma conta simples, que escancara o tamanho do desafio e, ao mesmo tempo, o tamanho da solução possível.
O relatório do Mautic termina com uma frase que me pegou: "Se todos acreditassem nisso e doassem o que podem, tenho certeza de que estaríamos quase na nossa meta".
Abrir a carteira é um ato de fé. Mas abrir o código, manter o código, documentar o código isso também é.
Se você leu até aqui, já deu um tempo de atenção. Se quiser dar um passo além, o link da vaquinha tá aqui: contribua com o Mautic. Ou vire membro, ou patrocine a conferência. Ou só espalha a palavra.
Porque no fim das contas, programar num mundo obcecado por resultados instantâneos continua valendo a pena. Mas só se a gente lembrar que, às vezes, o resultado instantâneo mais importante é manter a porra do servidor ligado.
Até a próxima.

