
Aconteceu no último final de semana. Uma situação dessas que a gente rotula como banal, mas que, se você apertar os olhos e observar com cuidado, revela as engrenagens de como lidamos com a vida, os negócios e a tecnologia.
Eu estava na praia com minha esposa e meu filho. O cenário clássico: correria para sair de casa, conferência de bolsas, protetor solar, o caos organizado de quem viaja com criança. No meio disso, o detalhe silencioso: esquecemos o cartão.
"Tudo bem", pensamos. "Vivemos na era do Pix."
No sábado de manhã, sob um sol que parecia convidar o mundo para acordar, um vendedor ambulante se aproximou. Gostei do produto, a venda estava praticamente fechada. Até que a realidade bateu: sinal zero.
O celular era um pedaço de vidro e metal inútil naquele ponto da areia. Olhei para o vendedor e soltei aquela frase automática que usamos para encerrar conversas sem parecer rudes:
— Poxa, meu amigo, eu compraria agora, mas aqui não pega nada. Se você conseguir internet, eu faço o Pix na hora.
Falei sem expectativa. Para mim, a falta de sinal era o ponto final.
Mas para ele, era apenas um requisito pendente.
Ele não discutiu. Não reclamou do governo, da operadora ou do azar. Ele simplesmente saiu. Caminhou até as casas que ficavam no limite da areia, conversou com alguns desconhecidos e, minutos depois, voltou.
Ele voltou com Wi-Fi. Alguém tinha compartilhado a conexão para que ele pudesse concluir a venda.
A Distância Entre Entender e Agir
O que me impressionou não foi o valor da compra. Foi a atitude. No mundo do desenvolvimento de software e dos negócios, estamos viciados em diagnosticar o problema e parar por aí.
Quantas vezes um projeto trava porque "o orçamento é curto", "o cliente é indeciso" ou "o cenário técnico é complexo"?
Objeções são reais. Limitações existem. O problema é que, no mundo corporativo, muita gente se sente confortável demais no papel de quem apenas "entende" a dor.
Eu entendo que o cliente precisa disso para ontem.
Eu entendo que essa funcionalidade resolveria o problema.
Eu entendo que estamos perdendo mercado.
Mas "entender" não fecha o código. Não coloca o produto na mão do usuário. Entender a falta de sinal é o básico; o diferencial é caminhar dois passos a mais para buscar o Wi-Fi.
O Esforço Como Interface
No digital, temos a ilusão de que tudo deve ser fluido e sem fricção. Mas o cliente percebe quando existe alguém, um desenvolvedor, um gerente, um suporte, que realmente se importa em resolver.
Isso aparece na atenção ao responder um e-mail, na disposição de explicar uma complexidade técnica sem arrogância ou na coragem de sugerir um caminho alternativo em vez de apenas apontar o erro.
Muitas empresas não perdem vendas por causa do produto. Perdem porque ninguém na equipe quis "caminhar até a casa vizinha". Enquanto isso, quem cresce é quem faz o básico com uma camada extra de empenho.
A falta de sinal naquela praia é a metáfora perfeita para o nosso dia a dia. O cenário ideal nunca vai chegar. Sempre vai faltar algo: tempo, clareza, estrutura ou dinheiro.
A pergunta que fica não é sobre a existência do problema, mas sobre a nossa reação a ele.
A objeção é um ponto final ou um ponto de partida?
No fim das contas, quem espera o sinal perfeito muitas vezes fica apenas observando de longe, enquanto alguém, com um pouco mais de suor e menos desculpas, passa na frente e resolve.